segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CHOMSKY, LEVY-STRAUSS E MAUSS - Pensadores e antropólogos reconhecem: é necessário que exista um Deus



Ronaldo Lidório



     A filosofia antropológica é uma das minhas áreas de interesse, sobretudo as teorias que giram em torno das formas normativas para agrupamentos sociais. Nos últimos tempos tenho lido pensadores contemporâneos que, em algum instante de suas conclusões teóricas, propuseram a não existência de Deus. Já estudava Chomsky há algum tempo e recentemente interessei-me por outras mentes brilhantes que igualmente iniciaram suas carreiras acadêmicas tentando dispensar teoricamente a existência do Eterno na formulação social humana. Minha pequena pesquisa pessoal tinha como alvo avaliar as conclusões finais em seus estudos já que todo pensador possui valores ainda inconclusivos ao longo da pesquisa. Como interessado na antropologia sinto-me atraído pelo que podemos chamar de ‘acuo filosófico’. Um momento dialético em que o pensador (ou uma sociedade pensante) conclui, mesmo com amargura e não raramente revolta acadêmica, a necessidade do Eterno sem o qual a humanidade torna-se empírica e filosoficamente inviável. Reconheço como leitor da Palavra que não há aí nenhuma luz que os conduza a Deus. Somente a Graça o faz. Entretanto há certamente uma escuridão que faz compreender o vácuo existencial sem a concepção de Deus. 
     Lendo o pensamento científico destes pensadores torna-se quase facilmente perceptível a sua divisão conclusiva em dois grupos. Aqueles que se frustram existencialmente e inconcluem suas teorias como Nietzche com seu niilismo onde se torna "negador de Deus" (1) e posteriormente (como seria diferente?) negador da vida sendo claramente influenciado pelo trauma da morte do pai, ministro luterano, já por algum tempo enlouquecido, quando ainda era criança. Ou por Kafka em seu ceticismo disfuncional onde jamais chegou a conceber sentido para a vida e vendo o mundo como "uma sociedade esquelética sem qualquer fim" (2) e sem conseguir detectar ‘a fonte da formulação deste cenário socio humano que chamamos de vida’ (3) que aparentemente era seu alvo inicial. Seguem-se a estes, outros como Derrida, Freud, atualmente Goleman e quase todos à sombra de Darwin sem mencionar Kant com seu racionalismo irônico onde diz ter "destruído Deus para depois o reinventar, apenas em benefício da necessidade teísta de Lampe, seu criado". (4) 


     O segundo grupo é formado por aqueles que, ao fim, conseguem achar humildade de espírito suficiente para concluir que, mesmo não defendendo cientificamente a existência de Deus, a vida (especialmente a humana) não poderia ser concebida sem a presença interventora do Eterno. Rendem-se, não à adoração a Deus, mas à sua necessidade, para eles próprios existirem. Dentre eles encontramos Levy-Strauss, Chomsky, Mauss e o próprio Kant, em seus arroubos de iluminação. 


     Gostaria inicialmente de destacar Noam Chomsky, um dos mais respeitados lingüistas do século XX, conhecido por sua busca axiomática das estruturas de comunicação e influente no mundo acadêmico e filosófico. Judeu, filho de um estudioso da língua Hebraica, tentou ele explicar racional e empiricamente as raízes de comunicação socio-humana quando, desenvolvendo seus principais estudos em Harvard foi tomado pela síntese teórica, óbvia ao seu ver, da ‘cognição inata’. Em poucas palavras trata-se da compreensão de que a comunicação socio-cultural foi desenvolvida antes dos agrupamentos sociais. Ou seja, toda a estrutura de comunicação humana, verbal ou semiótica, foi criada antes do ser humano se agrupar. Ele afirma que ‘a liberdade lingüística e a criatividade não são adquiridas, mas sempre existiram de forma apriorística" (5) e finalmente sucumbe reconhecendo que usuários de linguagem jamais poderiam compreender novas estruturas gramaticais sem jamais as ter encontrado na prática, o que torna a linguagem inata, e primeira, antes da dispersão social. Chomsky concluiu a necessidade do Eterno para que a humanidade pudesse se comunicar. 


     Chomsky trata também em outros estudos da aquisição da linguagem e a sua competência pressupondo a criatividade como sendo algo nascido do "estímulo/resposta" (6). Entretanto mais uma vez conclui que a linguagem, por sua estrutura socio-comunicativa, não poderia ter sido assimilada. Antes precisaria ter sido criada pré-homem. Afirma que ‘a linguagem não possui, como muitos imaginavam, um status autônomo, ..... mas sim a expressão do sujeito psicológico’ (7). Segundo o lingüista Saussure (8) ‘primeiro surgiu a parole (fala), depois a langue (estrutura gramatical)’. Garnins reconhece que ‘a fala surgiu com o primeiro homem, portanto não evoluiu com as escalas pré-humanas, e indica o dedo de Alguém que, antes do homos, já se comunicava’ (9). Mais uma vez não podemos entender aqui qualquer apologia teológica mas ver tão somente pensadores e filósofos reconhecendo a necessidade de Deus. Um acuo filosófico. 


     Claude Levy-Strauss é um dos mais renomados, e citados, antropólogos em nossos dias. Filho de pais artistas, intuitivo e acadêmico, completou sua agregation em filosofia na Sorbonne nos anos 30 e até mesmo teve uma rápida passagem por São Paulo como professor de antropologia. Sua obra clássica (As Estruturas Elementares do Parentesco) possui clara e forte influência de Mauss (que alías chegou próximo das suas conclusões chamadas ‘místicas’). Em sua tese inicial Levi-Strauss estuda o agrupamento humano em uma perspectiva evolutiva e assim esperava-se encontrar ao longo das pesquisas etnológicas uma paralela evolução dos valores humanos. Entretanto, para surpresa do racionalismo e existencialismo reinantes na época, Levy-Strauss analisa os agrupamentos humanos históricos e presentes sob a ótica de uma pesquisa empírica e conclui que os valores sócios culturais sem sombra de dúvidas eram pré-estabelecidos. Em outras palavras, o valor moral existiu antes dos agrupamentos humanos se dispersarem para a formação de grupos maiores. Utilizando o estudo antropológico de alguns axiomas gerais como o incesto ele concluiu que tais valores existiam antes da formação da sociedade alvo. Se o homem ainda não havia tido ‘história’ suficiente para, ele mesmo, desenvolver seu padrão moral e transmiti-lo a grupos posteriores, qual a raiz do padrão moral ? Não há resposta fora da pessoa de Deus. Levy-Strauss menciona que ‘...o princípio da vida não pode ser unicamente explicado por uma versão do funcionalismo (vive-se para um fim) nem tampouco empiricamente por fatos condenados a falares por si mesmos... De fato, sistemas de parentesco mantêm a natureza em xeque pois o incesto, a priori, não é um fenômeno natural, evolutivo, mas sim axiomático, pré-existente’ (10). 


     Curiosamente passei a ler um pouco mais de Mauss, que fortemente influenciou Levy-Strauss. Apesar de não possuir conclusões tão expressivas ele expõe exaustivamente o conceito de ‘mana’. ‘Mana’ para Mauss é uma inexplicável sobrenaturalidade sem a qual as sociedades tornar-se-iam inviáveis. A conclusão nesta fase inicial de Mauss foi a de unicidade. A humanidade é uma pois vivemos sob a sombra de um só ‘mana’. Chegou a esta conclusão após o estudo exaustivo etnográfico de três grupos, os Potlatch na América, os Kula no Pacífico e os Hau da Nova Zelândia. Afirmou, ao fim, que ‘passo a crer em meios necessariamente biológicos de se entrar em comunicação com Deus’ (11). Não pensemos entretanto que ‘comunicação com Deus’ provém de uma concepção teológico/revelacional. Ele jamais chegou perto disto. Entretanto reconhece que sem ‘mana’, a existência autônoma do Eterno interventor, a sociedade como existe hoje seria inconcebível pois ‘todos os grupos culturalmente definidos concordam, buscam e reconhecem submissão do invisível sobre a natureza humana’ (12). Mais uma vez enfatizo que não há apologia teológica mas sim reconhecimento da necessidade de conceber Deus, sem o qual invibializaria a própria transmissão cultural. 


     Temos aqui, portanto, uma tríade de conclusões filosóficas as quais, distintas e teóricas, desembocam na expectativa por Deus. Chomsky reconhece a necessidade de Deus para justificar a existência da comunicação pré-social e pré-evolutiva. Levy-Strauss o faz para conseguir explicar a existência de um padrão moral na raiz dos agrupamentos sociais e Mauss torna-se quase obcecado pelo ‘existente espiritual‘ que chama de ‘mana’ sem o qual a transmissão de cultura se tornaria inviável. 


     Como temos a Revelação Bíblica, que expõe um Deus existente e redentor a busca do homem não precisamos de conclusões filosóficas para fundamentar nossa fé. Entretanto faz bem à alma perceber que, mesmo na escuridão anti-teísta, homens, imagem de Deus, não conseguem parar de buscar no Eterno o Ser iniciador e mantenedor social. E isto me faz pensar que, no vácuo existencial do pecado, sob a escuridão da incredulidade e ante as hostes do inferno, a existência de Deus é a único alento perante o desespero de um homem a procura do sentido da vida, qualquer vida. Não há vida sem Deus. 


     Notas 
(1) Human All Too Human, Cambridge Univ. Press 1986 
(2) The Diaries of Franz Kafka, Peregrine 1964 
(3) Literature and Evil, G. Bataille, 1973 
(4) Crítica da Razão Prática – Grandes Filósofos, Ed. Globo 1952 
(5) Do Estruturalismo à pós modernidade, John Lechte, Difel 1994 
(6) Chomsky: Selected Readings, J. Allen, Oxford University Press. 1971 

(7) Language and Problems of Knowledge, Cambridge, MIT Press 1988 
(8) Ferdinand de Saussure, chamado de "pai da lingüística e do estruturalismo" nos círculos de Genebra no início do sec XX 
(9) Signs and System, Holdcroft, Cambridge Univ Press 1991 
(10) The Bearer of Ashes, D. Pace, Boston 1983 
(11) As técnicas do corpo, Marcell Mauss, Editora da Univ de São Paulo 1974. Na verdade Ele aqui se referia a Pascal quando afirmou instruiu: "Ajoelhe-se, mova os lábios em oração e você acreditará em Deus". 
(12) Do Estruturalismo à pós modernidade, John Lechte, Difel 1994 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Novo ebook da Google para o setor da educação

Um mundo novo e aberto para aprendizado. Este é o slogan que leva o novo ebook lançado pela Google focado exclusivamente para a educação.
O ebook está divido em três partes que traçam os objetivos e os projectos da Google para o setor e já em seus títulos indicam as motivações da empresa: Tornar a aprendizagem mágica para estudantes; Capacitação das comunidades inovadoras; Construção de uma base de tecnologia e de acesso. 
Para descarregar basta clicar aqui. O ebook é gratuito e esta edição está disponível em inglês.

Leia mais: http://ebookportugal.net/2012/02/novo-ebook-da-google-para-o-setor-da-educacao/#ixzz1lGCGHFVw

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

PirateBay abre uma categoria para compartilhar objetos reais

http://wwwhatsnew.com/wp-content/uploads/2012/01/captura-41-600x192.jpg
Se você tiver uma impressora de objetos em 3D agora poderá obter modelos desde Piratebay, começando por seu famoso barco que usam como marca.
A nova categoria, Physibles, não tem ainda muito conteúdo, porém permitirá que os usuários compartilhem suas obras para que outros possam baixá-las e imprimi-las em suas casas, obtendo figuras de todo tipo.
No artigo onde o anunciam comentam que, embora estas impressoras não sejam vendidas em qualquer lugar, serão muito comuns nos próximos anos, e eles pretendem estar preparados para a enorme demanda de modelos que existirá.
Para comentar a tecnologia fazem referência a RepRap, a impressora de objetos 3D que pode construir um clone de si mesma (se alguém tiver uma, poderá fabricar outra de forma simples).

domingo, 22 de janeiro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Primeiras crônicas são recuperadas e disponibilizadas a partir desta semana na internet


RIO - Aos 15 anos, um jovem interno do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, publicou seu primeiro texto. "Vida nova" — que saiu no dia 14 de abril de 1918 no jornal "Aurora Collegial" — falava da expectativa da chegada à nova escola, "com a alma povoada de esperanças miríficas e sonhos maravilhosos". Sonhos esses que terminariam em 1919, quando Carlos Drummond de Andrade foi expulso por "insubordinação mental", após discutir com um professor.Foram apenas dois anos de Anchieta, período em que ele escreveu pelo menos dez crônicas. Graças ao esforço de Nelson Bohrer, presidente da Fundação D. João VI, de Friburgo, nove delas foram recuperadas, digitalizadas e estarão disponíveis a partir desta semana no portal www.djoaovi.com.br. Ele teve acesso a exemplares do jornal, feito pelos alunos do colégio entre 1905 e 1922. Vários volumes estavam embrulhados em papel de jornal. Alguns exemplares haviam se rasgado.
— Higienizei, consertei e devolvi tudo recuperado — diz ele, que prefere não revelar como conseguiu o material, guardado pela escola. — Só não foi possível encontrar a crônica "Extraordinária visita", publicada em 10 de junho de 1919. Ou o jornal veio para mim só com as páginas 1, 2, 5 e 6 ou no processo de digitalização foram puladas as páginas 3 e 4, onde estava a crônica.
"Extraordinária visita" descreve um sonho em que aparece o corvo de Edgar Alan Poe. Ele responde com a frase do poema — "Nevermore" — às perguntas do autor sobre seu sucesso nos exames.
Drummond não tinha muito apreço por seus primeiros textos.
— Ele nunca se interessou por eles. Considerava-os infantis demais — diz o poeta, crítico e tradutor Fernando Py, de 76 anos, autor da "Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade", que cataloga os textos de 1918 a 1934 e onde cada um saiu publicado.
Mas se estão longe de entrar numa antologia das melhores crônicas brasileiras, seu valor documental, histórico e biográfico é inegável. Ao fazer seu livro, Py listou os nomes das crônicas e as datas em que saíram no "Aurora Collegial".
— Drummond não queria que eu tomasse conhecimento delas. Dei como exemplo Machado de Assis, que teve toda sua bibliografia publicada em 1955. Ele me respondeu: "Eu não tenho a importância de Machado de Assis!" Mas tudo que se refere a ele é interessante.
Nas colaborações para o "Periódico Quinzenal da divisão dos Maiores", como o "Aurora Collegial" se autointitulava, ele assinava Carlos Drummond Andrade, sem o "de". No caso de "Uma noite na Senegambia", de 31 de julho de 1919, anotou CêdêÁ. Às vezes, aparecia "74", referência a seu número como aluno, e 2 ano Ginasial. Em "Uma data", de 17 de agosto de 1919, artigo comemorativo do número 200 do periódico, Drummond fala com simpatia do jornal: "Duzentas alvoradas tingiram de oiro e púrpura o céu friburguense, e duzentas vezes gemeram os prelos para que viessem à luz da publicidade duas centenas de números da ‘Aurora’."
Em nenhuma crônica há sinal de interferência ou de censura da direção do jornal. No entanto, em "Estréia literária", poema de "Fria Friburgo", de 1979, é denunciada a intromissão em pelo menos um de seus textos: "O padre-redator introduziu/ Certas mimosas flores estilísticas/ No meu jardim de verbos e adjetivos." Devia estar se referindo a "Maio", de 30 de abril de 1918, talvez a crônica mais derramada, em que há a mistura de clichês líricos com arroubos "poéticos" que certamente ele renegaria depois: "Há gemidos vagos em toda a natureza", "súbito, a grande voz dos sinos, na altura nevoenta dos campanários", "o bimbalhar sonoro dos sinos, a música álacre dos pássaros, a alegria triunfal do mundo", "a terra reverdece e se adorna de mimosas flores".
Em outro poema, a denúncia é de censura na correspondência: "Não te mando esta carta/ que um padre leria certamente./ E me põe de castigo uma semana/ (e nem tenho coragem de escrever)./ Esta carta é só pensada."
— Ele era censurado ideológica e estilisticamente — diz o professor emérito da Universidade do Porto, o português Arnaldo Saraiva, de 72 anos, sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras.
Fernando Py confirma que os textos eram "deturpados". Mais tarde, Drummond se queixaria de uma emenda: "Um padre introduziu criminosamente, em minha descrição da primavera, a expressão ‘tímidas cecéns’, que me indignou." A passagem pela escola foi citada na "Revista Acadêmica": "Perdi a fé. Perdi tempo. E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam. Mas ganhei vida e fiz alguns amigos inesquecíveis."
As primeiras crônicas de Drummond, publicadas no "Aurora Collegial", exibem sua erudição precoce, citando o crítico Sainte-Beuve, o filósofo Nietzsche, os sábios de Hélade e a Biblioteca de Alexandria. Mas, de modo geral, abordam temas frugais e variados, como a volta às aulas, a primavera e o mês de maio.
Em "História do pinto pelado", de 25 de maio de 1919, Drummond fala de um pintinho "desprezado dos irmãos e de todos, que vivia uma vida d’isolamento, lá no seu cantinho" e que se imagina pássaro, borboleta, flor ou raio de sol, até que volta à dura realidade, "à sua primitiva pequenez ignorada... Era de novo pinto sem penas".
"Calor, exames e o nariz de Cleópatra", de 30 de setembro de 1919, traz comentários sobre o tempo em Friburgo: "Isto de calor em pleno setembro é uma pilhéria de mau gosto, que nos faz perder o sono e comer consideravelmente menos." Ele também fala do nariz de Cleópatra: "Os apêndices nasais desta senhora desviaram o curso da história do mundo. Ah! Se Cleópatra não tivesse nariz!"
‘Profissão d’encher linguiça’
Em "Conversa fiada", a última delas, de 19 de outubro de 1919, Drummond inaugura, antes de Rubem Braga, a crônica sobre a falta de assunto, que é "cousa rara como carne de vaca na Rússia de hoje". Com autoironia, ele explica que se vê "constrangido a exercer a tristíssima profissão d’encher linguiça". E, como não pode apresentar um "suculento prato de árdua confecção", ele cita a conversa que teve com um vagalume — em "Primavera", de 18 de setembro de 1919, ele já havia falado com um lírio. Aqui, depois de dialogar com o pirilampo, o autor o despacha com humor, por estar com sono, "pois tive aula de latim hoje".
No texto "As prosas colegiais de Carlos Drummond de Andrade", o professor Arnaldo Saraiva diz que há um desnível artístico entre as duas primeiras crônicas, "Vida nova" e "Maio" — que "denunciam a inexperiência e a ingenuidade de um principiante" —, e as restantes, que trazem referências a Eça de Queiroz e são revolucionárias, no sentido de que "reagiam pela justeza, pela medida, pela elegância, pela descontração contra a solenidade, a pompa, o derrame sentimental, o foguetório verborraico dos prosadores da época".
Das dez crônicas, Fernando Py, autor da "Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade", diz que somente "Maio" foi republicada, no dia 2 de dezembro de 1979, no jornal "O Estado de S. Paulo". Saraiva incluiu nove delas — não conseguiu ter acesso a "Uma noite na Senegambia" — em sua tese "Carlos Drummond de Andrade: do berço ao livro — Subsídios para a história do modernismo no Brasil", apresentada em 1968 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mas o material teve circulação restrita.
— A tese não foi impressa porque Drummond não gostaria de ver esses textos juvenis publicados. Ele os desvalorizava — explica Saraiva.
Ele fez 20 exemplares, em edição mimeografada. Ficou com dois, entregou outros para a banca e para o arquivo da faculdade, enviou alguns a amigos e estudiosos e mandou cinco para o Brasil.
— Duas, eu sei que se conservam na biblioteca que era de Plínio Doyle e na de Gilberto Mendonça Teles.
Se nas crônicas não há referências à passagem pelo educandário dos jesuítas, nos 40 poemas de "Fria Friburgo" Drummond abre o verbo para se queixar. Ele relata o que chama de "dois anos jogados fora", traduzidos em trechos ora amargos, ora irônicos, ora sarcásticos. Do triste período escolar, ele teria guardado até o modo de andar com os braços colados às pernas e a cabeça baixa. Foram anos de inadequação e sofrimento. A certa altura, ele pergunta: "Quando termina, se é que termina, o meu exílio?".
Desde o começo, o aluno "74", apelidado de "O anarquista", manifesta seu desassossego. Em "Terceiro dia", já não suporta mais a saudade, o frio, o dormitório que lembra um hospital, o travesseiro que ele ensopou de "lágrimas ardentes", o banho de madrugada no chuveiro gelado. "Mamãe, quero voltar/ Imediatamente/ Diz a Papai que venha me buscar." A saída do colégio se deu de forma brusca, como lembra Saraiva:
— As notas eram lidas em voz alta. Drummond me contou que o professor de português, após a leitura, disse: "Essa nota foi dada por comiseração." Ele respondeu: "Eu não quero nota por comiseração, eu quero uma nota justa."
Segundo Pedro Drummond, neto do poeta, os jesuítas mandaram que se retratasse, senão seria expulso. Ele se retratou — e foi expulso. Drummond se sentiu traído.
— Meu avô disse que foi um ato tipicamente jesuíta. Nos anos 1980, no aniversário do colégio, ele foi convidado, mas recusou: "Não vou voltar a um lugar do qual fui expulso."
Helenio Campos da Silva, que passou 22 de seus 81 anos como professor de biologia do Anchieta, diz que "insubordinação mental" era um termo muito comum na época, referente a um tipo de indisciplina considerado grave. O episódio parece ter deixado marcas também na escola. No livro "Colégio Anchieta 1886/1986", lê-se: "Entre os alunos que se tornaram célebres não podemos omitir os nomes do Dr. Sobral Pinto, Almirante Amaral Peixoto, os senadores Mozar Lago e Artur Bernardes Filho, os Drs. Vilhena de Morais e Bandeira Vaughan, os Padres Gentil e Leonel Franca, Sabóia de Medeiros, Vioti e Aguiar, e tantos outros." Drummond entrou para a categoria "tantos outros".
Nelson Bohrer, presidente da Fundação D. João VI de Friburgo, teve acesso ao material quando começou a digitalizar todo o acervo do Arquivo Pró-Memória, que guarda quase meio século da história da cidade. Ele está digitalizando 1,5 milhão de itens, como os exemplares de mais de 40 jornais diferentes de Friburgo, entre eles o "Aurora Collegial".

Leia os textos do autor e vejas as páginas do jornal 'Aurora Collegial'

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Mar Ocidental: um novo blog literário, e de quebra os melhores poemas do Século XX


No quase longínquo ano de 2000, o jornal Folha de São Paulo publicou uma lista elaborada por especialistas, listando o que consideravam ser os melhores 100 poemas internacionais do Século XX. 

Mas o título deste post fala primeiro de um novo blog literário. Pois bem, criei a pouco tempo um novo blog, o Mar Ocidental. O objetivo deste blog é ser uma espécie de revista de literatura, a enfatizar a Poesia, mas com canal aberto para a prosa e as artes plásticas. Um espaço de publicação dos mestres da arte poética de todos os tempos e quadrantes, e ainda traduções, ensaios, notícias literárias, resenhas de livros, etc. Se o blog Poesia Evangélica atém-se a divulgar e promover especificamente a nossa poesia cristã em suas múltiplas formas, este Mar Ocidental tem um caráter mais secular. Um espaço de enlevo e também de aprendizado, terreno fértil para a lavoura de todos os amantes da Poesia, e todos que exercem e aspiram a exercer melhor a arte poiétika. Vale dizer ainda que este é um blog coletivo, onde colaboram muitos outros autores, como J.T.Parreira e Rui Miguel Duarte.


Ah, voltando à referida lista dos melhores poemas: você pode lê-la aqui. E irei publicando os poemas listados, na medida do possível, no blog Mar Ocidental, para deleite dos leitores. Por ora, você pode ler por lá os poemas À Espera dos Bárbaros, de Konstantinos Kaváfis, e o grande A Terra Desolada (The Waste Land), de T.S.Eliot, com razão eleito o melhor poema do século pretérito.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Para ler nas nuvens

http://revistaepoca.globo.com


Os programas para você buscar, comprar, guardar e aproveitar seus escritores preferidos no celular, no tablet ou no computador pessoal


Desde o lançamento do leitor digital Kindle, que catapultou o crescimento do mercado de livros eletrônicos a partir de 2007, a leitura digital tem dividido opiniões. De um lado, há quem defenda a experiência prazerosa de ler no papel, supostamente inimitável pela tecnologia. De outro, entusiastas dos livros digitais desfilam pelas ruas com seus e-readers (os aparelhos de leitura) e exaltam a praticidade dos e-books (as obras digitais). Há, porém, um terceiro grupo, no qual está inclusa a maior parte dos consumidores: aqueles que não se importam o suficiente para defender um dos lados da disputa (ou mesmo comprar um e-reader), mas gostariam de desfrutar as facilidades dos e-books. Desde que não dê muito trabalho. A seguir uma seleção de aplicativos baratos ou gratuitos para desbravar o acervo crescente de livros digitais.
FACILIDADE O editor de livros Paulo Tadeu e seu tablet. Desde que aderiu aos e-books, ele compra mais livros estrangeiros (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)
Os e-readers como o Kindle, da Amazon, oferecem uma experiência mais semelhante à do papel, com telas desenvolvidas para não irritar os olhos. Mas os aplicativos para computadores, tablets e smartphones são opções mais acessíveis para quem não quer investir em um aparelho dedicado para livros. “Optei por um tablet, no lugar de um e-reader, porque ele tem outras funcionalidades, e a leitura é muito confortável”, diz o editor de livros Paulo Tadeu, recém-convertido ao mundo dos e-books.
Outro ponto forte dos aplicativos é a possibilidade de ler o mesmo livro em vários dispositivos (incluindo e-readers), retomando a leitura no ponto anterior. Depois que você começa a ler um livro digital no smarthphone, se abrir a mesma obra no aplicativo do computador, tem a opção de ir para o ponto onde parou. “Uso o iPad de dia, quando estou em algum intervalo no trabalho ou no café”, diz o programador Daniel Filho. “O Kindle, uso em casa, antes de dormir, por proporcionar uma leitura mais confortável.”
Para explorar esse mercado, as principais lojas de livros digitais já criaram aplicativos que funcionam em várias plataformas. Um dos mais populares é o Kindle, da Amazon, que busca reproduzir em outros dispositivos as funções do popular e-reader da empresa. A Apple também disputa o público com o iBooks, que permite comprar e ler livros digitais. Outras livrarias virtuais do Brasil e de outros países aderiram à moda (leia o quadro abaixo). Por enquanto, a tecnologia tem algumas limitações importantes – sobretudo para os leitores brasileiros. Além de lidar com um acervo escasso de livros digitais em português, os usuários do país não têm acesso a alguns dos principais aplicativos do gênero. E muitas livrarias digitais estrangeiras impõem restrições às vendas para o Brasil. Para comprar um livro digital na Fnac francesa é preciso ter um cartão de crédito daquele país. Mas as restrições devem durar pouco: aplicativos como o Kobo, o Kindle e o iBooks já oferecem formas de pagamento mais flexíveis. Dificilmente a tendência será ignorada por outros. O entusiasmo dos usuários e sua disposição para as compras virtuais justificam o esforço. “A oferta de conteúdo aumentou meu volume de leitura. Estou sempre lendo quatro ou cinco e-books ao mesmo tempo”, afirma Paulo.

Conheça os aplicativos de leitura mais populares (E gratuitos!) que podem rodar em várias plataformas (Foto: reprodução)

(Clique na imagem para ampliar)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

James Joyce, Virginia Woolf e diversos outros autores com acervo em Domínio Público a partir de 2012


Veja também a lista de autores que entraram no domínio público em 2010 e em 2011 .