Mostrando postagens com marcador software livre. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador software livre. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Quarta revolução industrial: A Era das Máquinas Livres

Para Joshua Pearce, o "faça você mesmo científico" está dando início a uma revolução: a era das máquinas livres, com software e hardware abertos. [Imagem: Sarah Bird/Michigan Tech]
"Faça você mesmo científico"
O movimento "Faça Você Mesmo" saltou das tarefas domésticas para os laboratórios de pesquisa.
E o salto foi impulsionado pelos mesmos motivos: economizar dinheiro e obterexatamente o resultado que você deseja.
Para Joshua Pearce, o "faça você mesmo científico" está dando início a uma revolução.
Três forças convergentes, todas de código aberto (open-source), estão por trás dessa revolução, explica o pesquisador em um artigo publicado no número mais recente da revista Science: software, impressoras 3D e microcontroladores.
Com essas ferramentas, pesquisadores de todo o mundo estão reduzindo o custo de fazer ciência, construindo seus equipamentos no próprio laboratório.
Arduíno
Tudo está sendo possível graças ao microcontrolador open-source Arduíno.
"A beleza desta ferramenta é que é muito fácil de usar," disse Pearce, que é professor da Universidade Tecnológica de Michigan. "Ela torna muito simples a tarefa de automatizar processos."
Veja como funciona.
O Arduíno - que é vendido por menos de R$100 no varejo - pode controlar qualquer instrumento científico, seja um contador Geiger, um osciloscópio ou um sequenciador de DNA.
Mas ele realmente brilha quando controla impressoras 3D, tais como a também de hardware aberto RepRap.
Esta engenhoca do tamanho de um forno de micro-ondas pode ser construída por menos de R$1.000, e pode construir suas próprias peças - uma vez que você tenha uma RepRap, você poderá construir tantas quantas queira. O laboratório de Pearce já tem cinco.
Impressoras 3D constroem objetos lançando camadas de plástico com espessura abaixo de um milímetro, umas sobre as outras, seguindo padrões específicos. Isso permite aos usuários construir equipamentos segundo suas próprias especificações, não ficando mais dependentes do que podem comprar no mercado.
O Arduíno controla o processo, dizendo à impressora 3D para fazer qualquer coisa, de um trem de brinquedo a um macaco de laboratório - não o animal, mas aquele equipamento de levantar coisas.
Faça parte da quarta revolução industrial: A Era das Máquinas Livres
A impressora 3D RepRap está sendo usada para construir equipamentos reais para uso nos laboratórios científicos. [Imagem: Pearce/Science]
Universo das Coisas
Macacos de laboratório levantam e abaixam equipamentos ópticos, mas não são radicalmente diferentes do macaco que você usa para trocar o pneu do carro.
O professor Pearce precisou de um em seu laboratório e, ao saber que o equipamento custaria milhares de dólares, resolveu projetar o seu próprio.
Usando uma RepRap, filamentos de plástico barato e algumas porcas e parafusos, Pearce e seus alunos construíram um por uma bagatela.
Então eles postaram o código OpenSCAD, que usaram para fazer seu macaco de laboratório, no Thingiverse, um repositório de projetos de código aberto, onde os membros da "comunidade de fazedores" podem enviar seus projetos para todos os tipos de objetos, e receber feedback.
"Imediatamente, alguém que eu nunca encontrei, disse: 'Isso não vai funcionar muito bem, você precisa fazer isso'," conta Pearce. "Nós fizemos uma mudança simples, e agora temos um macaco de laboratório que é superior ao nosso projeto original."
O Thingiverse - o "Universo das Coisas" (Things + Universe) - é um filho do movimento do software livre e de código aberto. Além de projetos para todos os tipos de objetos, ele pretende juntar milhares de mentes especializadas para resolver problemas. É a última palavra no trabalho em equipe, disse Pearce.
Faça parte da quarta revolução industrial: A Era das Máquinas Livres
O macaco de laboratório foi otimizado com a ajuda da comunidade de hardware aberto. [Imagem: Thingiverse]
Economia da doação
"Os movimentos do software livre e do hardware livre estão criando uma economia das doações. Nós pagamos para a comunidade submetendo nossos projetos, e recebemos pagamentos de volta na forma de um excelente feedback e acesso livre ao trabalho de outras pessoas. Quanto mais você dá, mais você recebe, e todos ganham nesse processo," disse ele.
A comunidade Thingiverse já tem uma linha completa de projetos com código-fonte aberto para mais de 30 mil "coisas".
E é tudo barato, o que traz em si a emergência dessa revolução.
Pearce relata que agora está ajudando seus estudantes a organizarem uma empresa cujos objetivos serão fazer projetos de código e hardware abertos para a indústria e construir instrumentos de laboratório sob medida para professores universitários, fornecendo tudo pronto por uma fração do custo dos equipamentos comerciais.
"Isso dará aos alunos as competências de que necessitam e lhes permitirá beneficiar toda a sua área de pesquisas," disse ele.
Faça parte da quarta revolução industrial: A Era das Máquinas Livres
Este equipamento permite construir trocadores de calor fundindo camadas de sacolas plásticas. [Imagem: Thingiverse]
Revolução da fabricação própria
Se a iniciativa se disseminar, milhares ou milhões de dólares que são gastos pelos laboratórios de pesquisa em todo o mundo para comprar equipamentos, agora poderão ser usados para dar apoio aos alunos.
Mesmo escolas de ensino médio poderão ter recursos para bons laboratórios de ciências. Mais pesquisas poderão ser financiadas com menos recursos, levando a mais descobertas.
"Usando hardware livre economizamos milhares de dólares para o nosso grupo de pesquisa, e estamos apenas esquentando os motores. Isso vai mudar a maneira como as coisas são feitas," disse Pearce. "Não há como parar essa revolução."
O endereço do Universo das Coisas é www.thingiverse.com, e uma boa forma de colaborar com essa nova onda seria que um grupo brasileiro se encarregasse de começar uma versão ".com.br" dessa "revolução das coisas".

domingo, 6 de abril de 2014

7 maneiras de aderir ao open source

Saiba o que é open source e conheça a sua importância
Crédito: Shutterstock.com
Existem alguns navegadores que apoiam a ideia do código aberto e utilizam o conceito nos seus produtos e serviços

open source, em português código livre, são os softwares de livre distribuição e que permitem total edição do código. Apesar de eles serem comuns na internet, muitos usuários não sabem como aderir aos softwares livres no seu dia-a-dia. A seguir, veja como:


Veja como é
possível levar o open source para as escolas

1 – Creative Commons
Quando você precisar realizar algum trabalho ou projeto que necessite de áudios, vídeos e fotos utilize oCreative Commons. Ele é uma iniciativa que visa expandir o acesso dos usuários comuns a diversas obras criativas. O Creative Commons foge do conceito de "direitos reservados" e se apoia nos ideais deconhecimento livre.

2 – Navegadores
Existem alguns navegadores que apoiam a ideia do código aberto e utilizam o conceito nos seus produtos e serviços. O Mozilla Firefox, por exemplo, permite que qualquer usuário crie extensões para melhorar a experiência de navegação na internet.

3 – Trocando e-mails
Thunderbird, também da empresa Mozilla, é um aplicativo para enviar e receber e-mails que participa da categoria open source.

4 – Participe de comunidades
Existem diversos fóruns e comunidades na internet para os usuários que aderem ao open source. Por meio do Open Source Way o usuário pode até descobrir como criar a sua própria comunidade de código livre.

5 – Faça você mesmo
O conceito de open source está estritamente ligado ao Do It Yourself (DIY) , ou seja, o faça você mesmo. Por isso, é importante participar ativamente da comunidade. É possível testar novos softwares criados por programadores independentes, descobrir erros, dar feedbacks e oferecer novas ideias. E talvez, se você entende de programação, por que não criar o seu próprio programa?

6 – Pesquise
O open source é um dos ramos cibernéticos com mais conteúdo disponível para estudar. Dessa forma, o usuário pode procurar por documentos, textos e artigos que possam ajudá-lo a entender mais sobre o conceito de código livre e ficar sempre atento às últimas tendências.

7 – Compartilhar
Compartilhar o conhecimento e propagar softwares livres é a essência do open source. Sem pessoas dividindo entre si o que sabem a comunidade do código livre não teria como existir. Por isso, caso realmente goste do conceito e do objetivo do open source, é importante que o usuário espalhe a ideia e distribua seu conhecimento.



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Correios oferecerão e-mail criptografado gratuito à população

Os Correios vão disponibilizar um serviço de e-mail criptografado gratuito para a população brasileira.
O objetivo é evitar espionagem de conteúdo.
Segundo o secretário executivo do Ministério das Comunicações, Genildo Lins, a remuneração da empresa poderia ser feita por meio da venda de anúncios na página, assim como os atuais e-mails gratuitos como Gmail e Hotmail.
"É uma grande oportunidade de negócios do ponto de vista dos Correios. Os correios do mundo hoje não vivem só de cartas, têm que encontrar novas formas de se sustentar," disse Lins.
A ideia surgiu durante o desenvolvimento de um projeto de certificação digital de mensagens, que está sendo feito pelos Correios para oferecer a empresas e pessoas físicas, mediante pagamento.
Lins disse que, apesar de o sistema ter começado a ser estudado antes das denúncias de espionagem de mensagens de brasileiros pelo governo dos Estados Unidos, as notícias recentes podem acelerar o projeto.
A expectativa é que o serviço de correio eletrônico gratuito criptografado esteja disponível para a população até o final deste ano
O sistema está sendo desenvolvido pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro).
O presidente do Serpro, Marcos Mazoni, defende que o sistema do Serpro é mais seguro por usar infraestrutura própria e software livre, além de ser um e-mail criptografado.
Segundo Mazoni, o Serpro vai fazer o trabalho técnico junto com os Correios.
Caberá ao Ministério das Comunicações fazer uma articulação para potencializar uma infraestrutura capaz de atender à população do país.
O e-mail será gratuito, e o projeto será custeado pelo governo. O sistema deverá ser nos mesmos moldes do serviço de e-mail expresso que já é oferecido pelo Serpro a seus clientes corporativos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Portal do Software Público & propriedade comum


Em 1937 um economista inglês chamado Ronald Coase, que já ganhou o Prêmio Nobel de Economia, fez as seguintes perguntas: “por que as firmas existem?” e “existem limites para o crescimento das firmas?”
Podem parecer perguntas óbvias, mas creio que muitos bons profissionais, sejam eles empresários ou administradores públicos, não saberiam responder a esta pergunta.
O próprio Coase respondeu à primeira pergunta usando a expressão “marketing costs”: o mercado não funciona sem custos, que são, resumidamente:

(1) o custo de busca da contra-parte; 
(2) o custo de redação do contrato; 
(3) o custo de monitoramento do cumprimento do contrato; e 
(4) o custo de acionamento do contratado no caso de quebra do contrato.


As firmas existem para minimizar estes custos. A segunda resposta, resumidamente, vem a reboque da primeira: se uma firma cresce demais ela tende a se tornar um mercado e volta a ter os tais “marketing costs”.
Mais tarde o professor Oliver Williamson, um ex-aluno de Coase, detalhou melhor os tais “marketing costs” (ou custos de funcionamento do mercado) e deu a eles o nome de custos de transação.
Oliver Williamson recebeu no ano passado (2009) o Prêmio Nobel da Economia justamente pelos seus estudos sobre os limites da firma. A professora Elinor Ostrom compartilhou este Nobel com o professor Williamson por seus estudos sobre o que o anglo-saxão chama de “commons”, que pode ser traduzido em português para propriedade comum. Elinor Ostrom foi a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel de Economia. Quem quiser conferir é só ir aqui.
O leitor deve estar perguntando: “o que isso tem a ver com o portal do software público?” A resposta é simples e vou explicar baseado nos dois primeiro custos de transação: o de busca da contra-parte e o de redação do contrato.
Um portal é um mecanismo de visibilidade e de hospedagem na Internet. Ele tem um endereço na Internet que corresponde a um local onde são colocadas informações direcionadas a um determinado assunto, de maneira que quem visita o portal possa encontrar as informações de que necessita, além de hospedar arquivos que tenham relação com os assuntos tratados no portal.
Evidentemente um portal não vai ter todas as informações, mas ele auxilia na busca, reduzindo o custo delas. E numa época onde tempo e atenção são ativos muito preciosos (o concorrente está a um clique do mouse) qualquer redução nos custos de busca já é um tremendo ganho.
A abordagem concorrencial do parágrafo anterior faz muito sentido quando nos referimos ao mercado, à propriedade privada. Aí acontece um impasse: o portal do software público não é propriedade privada, mas sim propriedade do Governo Federal, ou seja, é propriedade pública.
Vem à tona, neste instante, uma aparente controvérsia, pois são oferecidos serviços de software pelo próprio Governo Federal e por empresas privadas num portal do Governo Federal e, ainda por cima, gratuitamente.  Será que haveria tal controvérsia a oferta fosse feita por um portal privado? Provavelmente não.
Acreditamos que a controvérsia não é em relação ao portal do software público, mas ao que ele divulga e hospeda: propriedade comum. Software público é propriedade comum. Mas o que é propriedade comum?
Bem, já existem definições muito precisas de propriedade privada e propriedade pública. Não há dúvidas quanto a isso. A novidade é que está em curso a (re) criação de uma terceira definição de propriedade, a propriedade comum, que não é privada nem pública e, ao mesmo tempo, privada e pública.
Escrevemos (re) criação, pois a propriedade comum já existia no tempo dos romanos, com o nome de res communes. Ela é construída pelo Estado e pela Sociedade e protegida pelos dois. Esta definição lembra o título de uma música dos Titãs: “Tudo ao mesmo tempo, agora!”.
Deste modo, Estado e Sociedade têm o direito de auferir os benefícios advindos dela. Como ainda está em curso toda uma discussão sobre a regulamentação desta propriedade comum que é o software público, ela ainda causa espanto (ou mesmo preocupação) a quem está fortemente ligado ás definições tradicionais de propriedade pública e propriedade privada. Isso é natural.
Voltando á análise dos custos de transação, atentemos para palavra “regulamentação” do parágrafo anterior. Pode-se facilmente notar que o portal do software público também está sendo usado como um ponto de encontro para a redação de uma espécie de licença de uso do software público brasileiro, a licença pública de marca.
Existe até um cronograma para isso que está no próprio portal. Ou seja, esta licença está sendo escrita pelo Estado e pela Sociedade. O portal é um instrumento para minimizar o custo da redação da licença pública de marca, que nada mais é do que um contrato. Eis que chegamos à redução do segundo custo de transação: redução do custo de redação do contrato, baseado no rateio do custo por todos os envolvidos na redação dele, que são o Estado e a Sociedade, o público e o privado. A partir do uso do portal, bem entendido.
É Importante dizer que não há qualquer obrigatoriedade de qualquer propriedade, seja pública, seja privada, ser tornada comum. A propriedade comum é apenas mais uma definição de propriedade que se agrega às já existentes: propriedade pública, propriedade privada e propriedade comum. No caso específico do portal do software público, até onde sabemos, ninguém foi obrigado a hospedar o seu software lá ou tem qualquer privilégio por ter feito isso. Tudo foi feito de maneira voluntária.
O portal, inclusive, favorece à aplicação do Princípio Jurídico da Igualdade na Economia: tratar de forma igual os iguais e de forma desigual os desiguais, isto é, suprindo as deficiências (no caso, de divulgação e de redação contratual) aos pequenos que se cadastram no portal como prestadores de serviços, afinal o software é público. Isso é fomento público à concorrência.
Esperamos que este texto auxilie nas análises de custo x benefício tanto do mercado quanto do serviço público, do valor do portal do software público brasileiro, pois é isso que se propõe a ser: um ponto de encontro para aqueles que buscam soluções para seus problemas de tecnologia da informação a baixos custos. Sejam eles públicos ou privados.

Algumas referências bibliográficas: 
Coase, R. H., (1937), “The Nature of the Firm”. Economica 4 (16): 386-405.

Coase, R. H., (1960), “The Problem of Social Cost”. Journal of Law and Economics 3: 1-44.
Williamson, O. E., (1985), The Economic Institutions of Capitalism, New York: The Free Press.
Ostrom, Elinor (1990). Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action.  New York: Cambridge University Press.
Uma pequena falta de modéstia, se me permitem:
Soares, M.V.B., (2007) “Nem privado, nem publico: o software livre e o emergir da propriedade comum”, Conferência Internacional de Software Livre 3.0, Badajoz, Espanha. Disponível em aqui.

* Marcus Vinicius Brandão Soares é aluno de doutorado na COPPE-Sistemas / UFRJ, membro do IBDE - Instituto Brasileiro de Direito Eletrônico e do GEDEL - Grupo de Pesquisas da Escola Judicial do TRT de Minas Gerais "Justiça e Direito Eletrônicos".

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A Guerra de Tróia e os softwares


Alexandre Oliva

É impressionante como ainda tem gente que nem pensa duas vezes antes de trazer um cavalo de madeira para dentro das muralhas da cidade, só porque o cavalo é dado. Como tiveram o infortúnio de descobrir os troianos, o presente de grego vinha com uma surpresa. Tivesse casca de chocolate, ao invés de madeira, poderia muito bem se chamar Kinder Hippo, ainda que os “soldadinhos” já viessem, digamos, armados e não estivessem ali para brincadeiras.
Presentes semelhantes vêm sendo oferecidos a cidades-estado em todo o mundo. São serviços ou software privativos, sem custos significativos para o doador, apesar dos vultosos valores nominais. Tal qual cavalo de madeira, aparentam não onerar quem os recebe, mas escondem segundas intenções inconfessáveis que põem em risco a soberania, a segurança e a economia dos estados que os trazem para dentro de suas muralhas virtuais.
Hoje em dia, cavalos e-lênicos não trazem mais soldados de carne e osso em seu interior, mas sim e-stratiotis, soldados eletrônicos. Alguns são espiões, que passam a receber e monitorar as comunicações internas da administração pública. Já imaginou, as comunicações estratégicas das forças armadas ou das relações exteriores nas garras eletrônicas de uma empresa que mantém para o governo estadunidense uma porta dos fundos aberta, descoberta e utilizada pelo governo chinês? Os troianos dos tempos de Helena tiveram suas próprias muralhas abertas pelos stratiotis infiltrados para o exército inimigo entrar, enquanto neotroianos ingenuamente usam os e-stratiotis infiltrados como mensageiros, que diligentemente armazenam cópias das mensagens no quartel general, para deleite de quem tem livre acesso pelos fundos. Não importa quão quente ou G.nial um serviço desses possa parecer: é fria, é do mal. Não caia nessa rede.
Alguns neotroianos escolados não mais convidam e-stratiotis a espionar as mensagens da administração pública, porém escambam a atenção, a privacidade e o futuro de seus docentes e discentes pelas algemas digitais que vão mantê-los, docentes e discentes, aprisionados, dependentes e impotentes. Duplo ganho para o ofertante, dupla perda para as vítimas. E quem deu a canetada, nada? Às vezes, nada! Outras, mergulha, voa de primeira classe, vai a festas, sem nem falar nas próximas eleições ou no próximo emprego. Deita-se sobre os louros de um problema mal resolvido, que custará às vítimas anos de análise (de sistemas?) para superar.
Um exemplo são vários estados e municípios que têm aceito as ofertas de serviços de correio eletrônico e anúncios comerciais para alunos e professores da rede (já escrevi essa palavra acima, não?) pública, direcionando os anúncios através da inspeção do conteúdo das mensagens eletrônicas.
Outros aceitam hipposoftware gratuito (afinal, os certificados de licença oferecidos têm custo de produção praticamente nulo) para adestramento de alunos, de modo que, ao chegarem ao mercado de trabalho, por causa da decisão que já tomaram por eles, tenderão a continuar usando as mesmas algemas, porém pagarão caro por esse discutível privilégio. Chama atenção a semelhança com a estratégia adotada por narcotraficantes até hoje, e por vendedores de outras drogas ainda legalizadas, que antigamente ofereciam gratuitamente seus bastões fumacentos a futuros dependentes nas saídas das escolas. Hoje, lamentavelmente, a escola traz arapucas semelhantes para dentro de suas muralhas, fazendo até convênio com fornecedores para que, valendo-se dos portões abertos, invadam, conquistem e destruam a educação, subjugando gerações inteiras.
Não seria difícil entender a aceitação desses abusos, mesmo na ausência de corrupção: os invasores usam de ardis enganosos para derrotar seus adversários e distorcer a história que escrevem, embelezando as feias estratégias bélicas. “Estratégia, do grego strategia”, intercede o Capitão Nascimento, sem mencionar (amo demais a vida para escrever “sem saber”) o quanto essa raiz pervade o vocabulário marcial helênico: stratiotis (soldado), stratiotika (militar), strategos (general)...
Na história assim escrita, posam, como heróis, crudelíssimos strategos de altas patentes e baixos golpes, como o Strategos Failure Reading e o Strategos Protection Fault, aquele da mortal Blue Screen of Death. Outros, valorosos e íntegros, como o Strategos Public License de GNU, grande craque do copyleft, podem ser pintados como vilões, por tão somente cumprirem seu papel heroico de defender os cidadãos das ameaças dos invasores. Ao estudar tão distorcida história, não surpreende que os leitores mais inocentes confundam heróis com heroína, craques com crack. “Lance a primeira pedra aquele que estiver livre!”, desafiam os invasores detrás da droga da cortina fumacenta. E tome injeção de dependência! “De graça, até injeção na testa!”, propõem. Que droga, né?
Assusta que se julgue razoável aceitar sem licitação esses presentes de grego, causadores de dependência, apenas porque sua primeira dose parece grátis. A lei de licitações não invalida o princípio constitucional da impessoalidade: dispensar de licitação um fornecedor quando outros poderiam oferecer produtos ou serviços similares pelo mesmo preço (aparentemente grátis) ou até preços menores (grátis e Livre, sem custos ocultos, ou até pagando para oferecer o serviço) falha no cumprimento desse princípio.
Vale ainda questionar, já que os inocentes que recebem e aceitam as ofertas parecem não se perguntar, por que raios companhias com fins de lucro ofertariam produtos gratuitos. Afinal, quando a esmola é muita, até o santo desconfia! Mas inocente nem sempre é santo, né? Valei-nos, São IGNÚcio!
Que interesses poderia ter qualquer dessas companhias em espionar as comunicações internas da administração pública? Em armazenar os dados da administração pública, de professores e estudantes em formatos e códigos que só essa má companhia saiba decodificar? Em tornar funcionários públicos, mestres e alunos dependentes de suas ferramentas? Em evitar, mediante dumping, o avanço de alternativas? Em usar esses “cases” para vender o mesmo problema a outros? Em usar a dependência assim estabelecida para cobrar daqueles que caíram no conto e descobriram, tarde demais, que só a primeira era grátis? Em usar uma pequena fração dos lucros assim auferidos para pagar as multas das condenações em processos anti-truste?
“É uma cilada, Bino!”
Parece até refilmagem de um “hit” das madrugadas de TV aberta da minha adolescência: “Pague para Entrar, Reze para Sair”. A diferença da adaptualização é que, na versão para .tv .net, a entrada do parque de diversões é grátis, atraindo ainda mais vítimas para o monstruoso vilão realizar suas fantasias pervertidas e desejos perversos.
Lembrem-se, .gov, .mil e .edu: alguém .com interesses e .com alguma estratégia para recuperar o investimento inicial da primeira grátis sempre estará envolvido nessas propostas indecentes. Tanto nos filmes como na vida real, o que ocorre com as vítimas poderia ser descrito muito bem usando termos de cunho sexual. Afinal de contas (que acabam sendo muitas), a palavra orgia também tem origem grega: festins sexuais a Dionísio, importado para Roma como Baco, deus do vinho e dos bacanais. (Não fique na mão! www.bacanais.orgy: festas quentíssimas, com muitos agrados para romanos, gregos e troianos! Acesse djá!)
Deu (ou deram?) para entender por que cautela e licitações são essenciais, mesmo quando o produto ou serviço parece dado? Ao contrário da oferta de Software Livre ou de serviços que respeitem a soberania e a autonomia dos clientes, inviabilizando estratégias de captura e aprisionamento que garantissem lucros obscenos posteriores, software e serviços privativos geram monopólios e impõem custos, ocultos como os stratiotis aqueus armados até os dentes no interior do cavalo de madeira dado a Tróia. São custos de saída e distorções de mercados futuros em razão de exclusividades (monopólios, artificiais ou não) na prestação de serviços sobre o presente de grego ofertado, que devem ser considerados parte de seu custo para fins licitatórios.
O princípio da impessoalidade é o calcanhar dos Aquiles invasores, pois vai bastante além das insuficientes práticas licitatórias atuais. Deve ser cumprido, ainda que, segundo o ditado, de cavalo dado não se olhem os dentes. Como alerta, ficaria melhor: de cavalo dado não se vêem os dentes. Não significaria que os dentes (ou quaisquer outras armas) não estivessem ali, nem que não se os deveriam procurar. Seria, ao contrário, um lembrete de que podem estar escondidos, e de que, conforme descobriram os troianos após uma noitada de comemoração e bebemoração pela pretensa oferta de rendição dos aqueus, mordida de cavalo traidor dói que é uma barbaridade!

Copyright 2010 Alexandre Oliva
Cópia literal, distribuição e publicação da íntegra deste artigo são permitidas em qualquer meio, em todo o mundo, desde que sejam preservadas a nota de copyright, a URL oficial do documento e esta nota de permissão.