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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

“É crucial estarmos vigilantes” Entrevista com o hacker Aaron Swartz



Por Tatiana de Mello Dias - http://blogs.estadao.com.br
Publicamos a íntegra da entrevista que o hacker Aaron Swartz, morto na sexta-feira, deu ao ‘Link’ em 2012
SÃO PAULO – “A maneira como empresas controlam sutilmente as alavancas da democracia é uma das coisas mais importantes e assustadoras que estão acontecendo hoje”, escreveu Aaron Swartz ao Linkem 2012. Ele respondeu por e-mail uma entrevista que daria origem à reportagem de capa que narrou sua trajetória e deu os detalhes do processo.
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Swartz cometeu suicídio última sexta-feira, aos 26 anos. Garoto-prodígio da computação, ele fez seu primeiro trabalho relevante (colaborou no desenvolvimento do RSS) aos 13 anos. Foi co-autor de uma série de projetos bem-sucedidos para a web – como o Reddit, a parte tecnológica das licenças Creative Commons e o Web.py, e também era também defensor ativo da liberdade da internet. Ele respondia a um processo e poderia pegar mais de 30 anos de prisão por ter baixado 4 milhões de trabalhos acadêmicos da biblioteca online JSTOR, a fim de disponibilizá-los online. As perguntas sobre o caso jurídico não foram respondidas, mas todas as outras sim. Abaixo, a entrevista inédita na íntegra.
Como você aprendeu a programar? 
Eu tentei vários tipos de coisas diferentes, mas as principais lições que eu aprendi foram de um curso de um dia dado por Philip Greenspun (pioneiro no desenvolvimento de redes sociais) no Massachusetts Institute of Technology MIT).

Como você conheceu Tim Berners-Lee (o criador da World Wide Web)
Eu encontrei ele pela primeira vez em um encontro do grupo de padrões que ele fundou, o W3C. Era uma sessão sobre o padrão RDF e ele estava sentado quieto em um canto, digitando em seu laptop, aparentemente sem prestar nenhuma atenção. Mas então, no final da fala de alguém, ele levantou a mão e fez uma pergunta que foi direto ao coração de qualquer coisa que tivesse sido apresentada. Foi realmente impressionante. Nós trabalhamos juntos na visão dele de web semântica; eu aprendi e me diverti muito.

Qual foi o seu papel na criação do RSS 1.0?
Eu entrei para o grupo de trabalho para criá-lo muito cedo e, como eu tinha mais tempo livre do que a maioria dos outros membros (ele tinha 13 anos), eu rapidamente mergulhei e comecei a fazer muito do trabalho. Logo eu me tornei um membro oficial e, então, eu acabei fazendo muito da atual forma da especificação.

FOTO: Reprodução/Mashable

Você também trabalhou com Lawrence Lessig, que rasgou vários elogios para você. Como foi o trabalho com ele? 
Eu li uma reportagem em um jornal sobre a ideia de Creative Commons, quando ela ainda estava sendo pensada, e escrevi para Lessig para encorajá-lo a usar a tecnologia RDF que eu estava desenvolvendo com o Tim Berners-Lee. Ele respondeu dizendo que aquela era uma ótima ideia, e que eu deveria implementá-la. Então eu entrei cedo na arquitetura do sistema de metadados deles, mas também ajudei um pouco com a programação.

O que você aprendeu com ele? 
Eu aprendi muito. A maneira como ele aconselha e encoraja as pessoas é bem inspiradora, assim como o estilo único dele se comunicar, e o foco intenso em problemas importantes.

Nos últimos anos, nós vimos várias leis duras antipirataria surgirem no mundo. Leis como a SOPA/PIPA nos EUA, e a Hadopi na França. Você acha que a indústria está aumentando a pressão sobre os governos? 
Sim, a indústria está colocando uma pressão intensa nos governos em todo o mundo. O mundo está mudando rapidamente, e eles provavelmente veem isso como uma última chance de tentar manter a sua maneira antiga de fazer as coisas.

Quais são as maiores dificuldades em relação ao acesso à informação hoje?
(não respondeu)

O que mudou na sua vida desde que você foi acusado?
(não respondeu)

Você acha que é um bode expiatório?
(não respondeu)

Alguns pensadores dizem que a internet está chegando a um ponto crucial, em que é preciso definir se quem ditará as regras serão os governos, as empresas que dominam os serviços ou as pessoas. Você concorda com isso? Há a necessidade de se estabelecer regras para o funcionamento da internet? 
Eu não acho que a necessidade de se criar ‘regras para a web’. Eu acho que há uma luta agora, em que várias grandes instituições, como Google, Facebook e governos, estão tentando aumentar os seus poderes para controlarem mais a internet – e eu acho que isso é muito perigoso, e é por isso que eu estou animado ao ver que as pessoas estão trabalhando juntas para prevenir isso.

O que você achou do Free Internet Act, do Reddit? 
Eu não li os detalhes, mas eu acho que é uma boa ideia e o processo público e aberto de redação é inspirador.

Por que você criou a Demand Progress? Como ela funciona?
Eu estava frustrado com a maneira como parecia não haver nenhum grupo político importante nos EUA que combinava um lobby cuidadoso em Washington com um grande ativismo online. Eu achei que combinando os dois, poderíamos realizar coisas incríveis.

E como vocês poderiam fazer lobby de uma maneira mais efetiva? Você acha que o setor de tecnologia está mal representado no Congresso americano? 
Eu acho que nós poderíamos ser mais eficientes se tivéssemos mais recursos. A indústria de entretenimento gasta quantias ridículas de dinheiro fazendo lobby, enquanto nós somos extremamente limitados. Como resultado, eles podem espalhar mentiras sobre a gente e a tecnologia, e é bem difícil para nós corrigi-los.

Swartz e Lawrence Lessig. FOTO: Arquivo Pessoal 
Você baixou 441 mil artigos jurídicos para determinar a origem do financiamento deles. Qual é a importância de hacks desse tipo para a democracia?
Eu não usaria esse termo. Esse foi um projeto de pesquisa que eu fiz para ajudar a mostrar a influência de grandes corporações em especialistas da academia supostamente independentes. Eu acho que a maneira como as empresas usam o seu dinheiro para controlar sutilmente as alavancas da democracia é uma das coisas mais importantes e assustadoras que estão acontecendo hoje. E eu acho que fornecer evidências claras sobre os detalhes é importante e útil ao informar o público sobre o que está acontecendo.

Se todos pudessem escrever software, você acha que a democracia seria fortalecida?
Eu acho que a tecnologia se torna mais e mais uma parte chave das nossas vidas. Garantir que todos tenham um entendimento básico sobre como programar os tornará pessoas mais eficientes e tomadores de decisão mais informados. Neste momento há um monte de pessoas que não entendem como a tecnologia funciona, então eles acham que podem magicamente parar as coisas ruins. Se eles programasse, poderiam ter sugestões mais razoáveis.

Você acha que a comunidade da tecnologia está se tornando mais politizada? 
Sim, definitivamente. E a batalha contra a Sopa foi a principal razão. A indústria da tecnologia como nós conhecemos hoje repousa sobre alguns pedaços finos de legislação, introduzida por membros mais prudentes do Congresso. Mas elas podem mudar a qualquer momento – então é crucial estarmos vigilantes.

Como é a sua rotina de trabalho?
Eu acordo bem cedo e tento pensar e escrever um pouco antes de usar o computador. Então eu olho meu e-mail e respondo coisas que chegaram de madrugada. Eu passo a maior parte do dia falando com pessoas e trabalhando em vários pequenos projetos, e à noite eu tento ler um livro.

Você já teve algum tipo de problema por causa da sua idade? 
As pessoas têm sido surpreendentemente tolerantes com isso, o que é encantador. Mas há definitivamente algumas provocações.

Na sua carreira, você desenvolveu padrões que se tornaram parte da web que usamos hoje. Quais são, para você, as principais tendências para os próximos anos?
A maior é provavelmente uma coisa de bastidores, que é o fato da linguagem de programação JavaScript estar se tornando realmente muito boa. Isso significa que sites se tornarão mais rápidos e interativos e mais e mais coisas poderão ser feitas dentro do seu próprio browser, em vez de ter que voltar a um servidor para cada nova página todas as vezes que você clica em um link.

Quais são seus próximos projetos? Você está escrevendo um livro?
Eu tive de deixar o projeto de livro de lado para focar em alguns projetos políticos, mas nenhum deles eu posso anunciar ainda.

Você já veio ao Brasil?
Sim, eu visitei o Rio de Janeiro e Belém para o Carnaval e o Fórum Social Mundial. É um país maravilhoso e inspirador – eu espero voltar logo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Lawrence Lessig - Compartilhar o controle da marca com o consumidor pode significar mais dinheiro


Lola Studio / HSM
Lawrence Lessig é advogado e criador do Creative Commons, iniciativa internacional de compartilhamento de propriedade intelectual na internet. Para ele, vivemos em uma era de remixagem, em que consumidores transformam o conteúdo produzido e transmitido pelas empresas. Passamos de uma sociedade que apenas consumia esse conteúdo para uma que o consome e recria.
Obviamente, nem todas as empresas ficam felizes com isso e resolvem tomar medidas legais contra esses consumidores, que usam um logotipo ou um jingle para criar algo completamente novo, por exemplo. Outras preferem abraçar esse tipo de criação e agregar mais valor às suas marcas. Na matéria de capa deste mês – você pode ler um trecho aqui –, nós contamos a história de um desses casos, o da Coca-Cola, que inclusive me foi apresentado pelo próprio Lessig. Dois fãs da marca de refrigerante resolveram criar uma fan page em sua homenagem, e esta se tornou um grande sucesso. Quando descobriu a sua existência, a Coca-Cola decidiu contratar a dupla como consultores e administradores da página, em vez de simplesmente tomar o seu controle.
Conversei com Lessig em setembro, e ele me contou como as empresas podem adotar um sistema que valorize tanto os direitos de a empresa faturar com seu conteúdo quanto a liberdade do consumidor de transformar e compartilhá-lo, em um sistema híbrido. “A internet encorajou essa produção colaborativa, mas a lei não acompanhou essa evolução”, afirma. “Compartilhar o controle da marca pode significar mais dinheiro para você.”
Confira a entrevista:
Como construir uma relação colaborativa com o consumidor?
Se a empresa quer que o consumidor participe dessa busca por valor para marca, eles precisam descobrir o que ele considera justo nessa relação. As empresas precisam gastar uma grande quantidade de energia para saber quais são as expectativas nesse relacionamento. E não há regra universal e exata. O importante é não deixar que essas questões explodam mais tarde. As marcas precisam imaginar uma forma de os seus consumidores contribuírem sem se sentirem roubados.
O senhor acha esse processo é mais fácil para pequenas e médias empresas?
Eu acredito que seja mais fácil, primariamente porque esses novos negócios estão sendo abertos por jovens empreendedores, que vêm dessa cultura, dessa realidade de colaboração. É mais fácil entender as necessidades dos consumidores. Mas, nesses casos, esses empresários precisam pensar cuidadosamente sobre sua estratégia a longo prazo. Quando você é jovem, tem um milhão de problemas imediatos e coisas que você gostaria de acrescentar ao seu produto ou serviço. É preciso ter em mente, porém, o futuro de tudo isso.
Qual o papel das mídias sociais nesse contexto?
Mídias sociais são ferramentas essenciais para facilitar a conversa com consumidor. Serão o primeiro local em que você encontrará a raiva e a frustração dele. Então é importante que você tenha alguém inteligente, ágil e divertido para liderar a estratégia nessa área. Alguém que não viva na defensiva, alguém direto. Você precisa mostrar que está ali para tentar descobrir quem seus consumidores realmente são.
O senhor acredita que, hoje em dia, uma marca é feita da colaboração com o consumidor?
Sim. Você consegue enxergar empresas que estão preocupadas em entender como eles interagem com o consumidor. O Flickr é uma empresa que tem um grande capital social e conseguiu isso por se identificar desde muito cedo com essa ideia de compartilhar e colaborar. Quanto mais cedo ela identificar essa necessidade, maior será seu capital social. As empresas precisam estar atentas a isso. O Facebook, por exemplo, me parece surdo em relação a essa temática, e vemos isso nos vários problemas que ele tem com sua base de usuários.
É possível que uma empresa ignore essa colaboração e ainda seja bem-sucedida?
É provável que ignorar o consumidor leve ao fracasso de uma empresa. Se você quer ser bem sucedido, escutá-lo é uma parte importante. Você precisa criar relações com eles baseadas em respeito e fazer com que ambos os lados tirem valor delas.
Quais são os benefícios de adotar um sistema híbrido?
O maior benefício está no ciclo de inovação. Os primeiros consumidores de um produto serão os mais intensos usuários. Ao ouvir um consumidor sobre como ele usa esse produto, você aprenderá muito mais rápido a se reinventar e se adaptar do que se ouvisse apenas sua equipe. O que aprendemos com as empresas que usam essa estratégia é que muitas vezes o especialista não trabalha para você. Na maior parte do tempo, a pessoa mais esperta usando o seu produto ou serviço é um dos seus consumidores. E começar essa relação desde cedo o ajudará a conseguir esse tipo de insight.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Entrevista com Kevin Kelly: "A tecnologia é uma dádiva de Deus"


 A era digital é um presente divino para salvar a humanidade,
diz o guru do Vale do Silício
Peter Moon -
http://revistaepoca.globo.com/


Quando a revista Wired foi lançada, EM 1994, obteve sucesso imediato ao explorar a influência cultural das novas tecnologias que surgiam uma atrás da outra do celeiro do Vale do Silício, na Califórnia. Quem percebeu primeiro a transformação tecnológica na sociedade foram os americanos Louis Rossetto e Kevin Kelly, respectivamente o fundador e o primeiro editor da Wired. Rossetto afastou-se da revista em 1999, e Kelly prosseguiu como repórter especial. Não abandonou sua função em tempo integral, que é pensar as conexões entre a tecnologia e a sociedade. Kelly é um evangelizador, um guru da tecnologia. Em seu livro O que a tecnologia quer (2010), afirma que a complexidade crescente da tecnologia atua em nosso favor, por ser uma obra do Criador.

ÉPOCA – O título de seu novo livro é sobre os desejos da tecnologia. O que ela quer?
Kevin Kelly – Não estou sugerindo que seu telefone ou seu celular tenham algum desejo próprio ou propósito em particular além daqueles para os quais foram projetados, conversar e trocar informações à distância. O que defendo no livro é que o conjunto de tecnologias criadas pelo homem vive um momento de crescente união, graças ao advento dos computadores e da internet. E essa união das tecnologias visa a um objetivo.

ÉPOCA – Qual seria esse objetivo?
Kelly – Os produtos das novas tecnologias tendem a se tornar cada vez mais complexos e especializados com o passar do tempo. Um exemplo é a câmera fotográfica digital. Quando surgiu, ela quase não tinha recursos e gerava imagens de baixíssima resolução. Hoje, mesmo câmeras mais baratas têm uma resolução altíssima e realizam automaticamente todos os ajustes de foco, brilho, luminosidade etc. Essa complexidade e especialização das câmeras torna o ato de fotografar muito mais fácil e rápido. Não é mais preciso fazer um curso de fotografia para conseguir tirar fotos “quase” profissionais. As câmeras digitais são um exemplo. O mesmo padrão de complexidade está presente em celulares, computadores, TVs, carros, aviões e elevadores. Quanto mais complexos ficam essas máquinas e esses equipamentos, mais tarefas são facilitadas ou eliminadas, tornando o trabalho mais produtivo, acelerando o aprendizado e alterando o lazer dos privilegiados que têm acesso às novas tecnologias.

ÉPOCA – Há aí uma contradição? Como a tecnologia pode ficar cada vez mais complexa e ao mesmo tempo oferecer uma experiência simples e fácil para quem usa?
Kelly – A contradição é aparente. A busca de simplicidade é decorrência do aumento da complexidade. Quanto mais funções se insere num celular, tanto maior é a necessidade de o usuário contar com um jeito de usar simples, para não afastá-lo dessas novas tecnologias. Tome o exemplo das redes sociais. As antigas redes de computador dos anos 1980 eram um universo dominado por programadores. Só eles tinham o domínio da tecnologia para poder se divertir trocando mensagens e arquivos. As redes sociais evoluíram. São ecossistemas digitais planetários, muito mais complexos e mais fáceis de usar.

ÉPOCA – Então, o propósito da tecnologia é facilitar nossa vida?
Kelly – Uma coisa é a finalidade da tecnologia, produzir bens e serviços, liberando o homem do trabalho braçal e repetitivo em troca do trabalho intelectual. Outra coisa bem diferente é seu propósito. O propósito maior da tecnologia é a comunhão dos seres humanos.
"O propósito maior da tecnologia
é a comunhão
dos seres humanos"

ÉPOCA – O senhor diz que temos a obrigação moral de aumentar a quantidade de tecnologia disponível no mundo.
Kelly – Somos 7 bilhões de humanos. Há 5 bilhões de celulares no mundo. Mais de 2 bilhões de pessoas têm acesso à internet. A questão não é mais o fosso que separa os plugados dos desplugados. O problema hoje é reduzir a distância entre aqueles que primeiro têm acesso às novas tecnologias e os retardatários.

ÉPOCA – É a função social da tecnologia?
Kelly – Muito mais do que isso. O acesso às novas tecnologias deve ser encarado como um direito básico do ser humano. Há 1 bilhão de celulares na África. Expandir o acesso às telecomunicações e à internet para as comunidades dos países subdesenvolvidos é o meio mais rápido e eficiente para que tenham acesso à educação e à cultura. Os dividendos sociais são óbvios. Não são os únicos.

ÉPOCA – O que está sugerindo?
Kelly – Quem tem acesso à educação tem mais chance de progredir na vida. Mulheres com mais acesso à informação têm menos filhos. Famílias menores têm mais chance de elevar seu padrão de vida. A consequente redução da natalidade acabará por reduzir o impacto da humanidade sobre os recursos escassos do planeta. Ao mesmo tempo, a proliferação da educação proporcionada pela disseminação das novas tecnologias vai expandir a conscientização da importância da preservação do meio ambiente. Podemos prosseguir no caminho atual, expandindo uma civilização tecnológica predadora dos recursos do planeta. Nesse caso, acabaremos sozinhos no mundo. Não creio que exista alguém com bom-senso que acredite que a vida na Terra seria melhor se estivéssemos sozinhos, sem animais selvagens, sem contato com a natureza, vivendo num planeta devastado. É claro que é melhor dividir o planeta com as outras espécies. É evidente que nossa vida será mais completa e feliz. Por isso acredito que a tecnologia tem uma função maior, que é levar a humanidade a um novo estágio, no qual poderemos viver em comunhão com os demais seres vivos.

ÉPOCA – O senhor diz que a tecnologia seria um sétimo reino da vida, além dos outros seis reconhecidos pela ciência, entre os quais animais, plantas, fungos e bactérias. Como assim?
Kelly – A tecnologia é produto da mente humana. Esta, por sua vez, é resultado de bilhões de anos de evolução desde o surgimento da vida na Terra. Nesse sentido, a tecnologia também é obra da evolução. A tecnologia atual pode se adaptar para preservar a vida no planeta. Ou pode continuar o passo que tem seguido, o da inadaptação, e contribuir para a destruição da vida. Sou um otimista. A tecnologia deveria ser encarada como o sétimo reino da vida, pois surgiu para garantir a preservação dos demais.

ÉPOCA – O senhor ganhou fama como um guru da tecnologia. Também é um cristão fervoroso. Sua devoção não o estaria fazendo assumir ao pé da letra o papel de evangelizador da tecnologia?
Kelly – Não há confusão. O propósito maior que enxergo no desenvolvimento da complexidade da tecnologia é o mesmo que vejo na evolução da vida na Terra. Não creio que Deus tenha nos dado os dons da vida e da razão para que pudéssemos conceber os meios da nossa própria destruição, carregando o resto do planeta conosco.

ÉPOCA – Se o aumento da complexidade tecnológica é constante, cedo ou tarde as máquinas começarão a pensar?
Kelly – Sim, a possibilidade do advento da inteligência artificial é concreta, embora eu a considere remota. Mas posso estar errado. O aumento da complexidade tecnológica não precisa necessariamente desembocar na inteligência. Quem é mais complexo, um carro ou um cachorro? O cachorro é incomensuravelmente mais complexo do que a mais complexa das máquinas feitas pelo homem. Cães não pensam. Mas não é preciso as máquinas pensarem para que a evolução da tecnologia descortine cenários sombrios para o futuro da humanidade, como aqueles apresentados nos filmes Matrix e O exterminador do futuro. Esses cenários são uma possibilidade. A tecnologia pode ser usada para o bem ou para o mal. Porém, novamente, não acredito que Deus nos teria dado a dádiva da tecnologia apenas como forma de sabotar sua própria criação.

KEVIN KELLY
QUEM É
O americano Kevin Kelly, de 59 anos, é escritor, blogueiro, conservacionista, fotógrafo e guru da tecnologia
O QUE FEZ
Em 1994, fundou em São Francisco, com Louis Rossetto, a revista Wired, da qual foi diretor executivo até 1999. Hoje é repórter especial da Wired e escreve o blog The Technium
O QUE PUBLICOU
Out of control (1994), New rules for the new economy (1999) e What technology wants (2010)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Teólogo americano prevê robôs indo à igreja e questiona se a salvação valerá para eles



Em meio às advertências sobre o impacto da tecnologia moderna em relação à alma, Kevin Kelly, 59, é uma espécie de evangelista dos geeks. “Podemos ver mais de Deus em um telefone celular do que em um sapo”, explica o co-fundador da revista Wired em seu mais recente livro, What Technology Wants [O que a tecnologia quer].
O título é provocante e introduz uma tese ainda mais provocativa: Todos os artefatos humanos, desde as palavras, passando pela roda e chegando à Wikipedia, agem conjuntamente com um organismo vivo, que reflete algo de divino. ”A tecnologia tem suas raízes na ação de Deus em todo o universo”, disse Kelly em entrevista à revista Christianity Today. A tradução é da Agência Pavanews.
Kelly entregou-se a Cristo em 1979, após ficar trancado do lado de fora de um albergue em Jerusalém e acabou dormindo em uma pedra na entrada da Igreja do Santo Sepulcro.
Você usa o termo technium para descrever todos os artefatos que os seres humanos criaram. Por que não usar a palavra “cultura”?
Uso technium para enfatizar que a criação humana é mais do que a soma de todas as suas partes. Alguns de nossos pensamentos são mais do que a simples soma de toda a atividade dos neurônios. A própria sociedade tem certas propriedades que são mais do que a soma dos indivíduos. Há algo maior do que nós. Da mesma forma, o technium terá um comportamento que você não vai encontrar em seu iPhone ou em sua lâmpada. A ideia de technium abrange muito mais do que é sugerido pela palavra cultura.
Este ecossistema tecnológico ou superorganismo não é algo aleatório, que é algo controverso na comunidade científica, mas não deve ser entre os teólogos.
É Deus que guia o progresso da technium a medida que ele se desenvolve?
Diria que o progresso é um reflexo do divino.
O que você quer dizer com isso?
Da mesma forma que dizemos que a beleza da natureza reflete Deus, o technium reflete algo do caráter divino. Não que o technium seja perfeito, pois qualquer coisa que inventamos pode ser usada para o mal. Mas, em geral, o technium tem uma força positiva, uma carga positiva do bem. O que denominamos “bem”‘ é medido basicamente seguindo as possibilidades e escolhas que nos apresenta. Essa é a métrica que uso para medir a bondade.
Ao ler seu livro, não pude deixar de pensar sobre Gênesis 1.28, onde Deus dá aos humanos a oportunidade de criar algo além de si mesmos, e que isso é “muito bom”, uma parte do que significa carregar a imago Dei.
Sim. Deus nos deu livre-arbítrio verdadeiro. Ele poderia fazer tudo, mas preferiu dizer: “Eu lhes dou o dom do livre-arbítrio, para que vocês possam participar na conquista deste mundo. Poderia fazer tudo sozinho, mas vou dar-lhe uma centelha do que há em mim. Criem”. Então, inventamos coisas, e Deus diz: “Oh, como isso é legal! Poderia ter pensado nisso, mas deixem eles criarem”.
Então, sim, há uma carga positiva dentro do technium, da mesma forma que a vida orgânica é boa e que mais a vida é melhor. Isso não quer dizer que não há horror na vida biológica. É só para dizer que, em geral, a vida cria um por cento a mais do que destrói a cada ano.
Você conta que fez parte de um movimento hippie que defendia a necessidade de minimizarmos os bens materiais. Em seu livro recente sobre o futuro do cristianismo, Gabe Lyons escreve que você não tem smartphone nem TV e só twittou três vezes. Suas escolhas são inconsistentes com sua crença de que a invenção tecnológica é algo tão bom?
A tecnologia pode maximizar a nossa combinação especial de dons, mas existem tantas opções tecnológicas que poderia gastar todo o meu tempo apenas experimentando cada nova possibilidade. Então, minimizaria minhas escolhas tecnológicas, a fim de maximizar a minha saída. Procuro encontrar as tecnologias que me ajudam em minha missão de expressar o amor e refletir Deus no mundo, esquecendo o resto. Mas, ao mesmo tempo, quero maximizar o conjunto de tecnologias que as pessoas podem escolher, para que possam encontrar as ferramentas que ampliam as suas opções.
Seus colegas sabem que você é cristão?
Sim, está na Wikipédia, por isso deve ser verdade.
Como você explicaria suas crenças a eles?
Gostaria de recitar o Credo Niceno que professo. No entanto, também tenho uma metáfora tecnológica para Jesus, o Filho de Deus. Desenvolvi ao conhecer de perto o cientista de computação Jaron Lanier. Bem no início do desenvolvimento do que chamamos hoje de realidade virtual, lá por 1986, visitei Jaron em seu laboratório. Na realidade virtual você coloca óculos e luvas e entra em um mundo virtual em 3D. Jaron tinha terminado de criar um de seus mundos virtuais naquela tarde. Ele colocou seus óculos e luvas e entrou naquele novo experimento. Ele ficou totalmente espantado com o mundo que ele tinha acabado de criar.
Pra mim, essa é a história da redenção de Jesus. Temos um Deus autônomo, que decidiu entrar neste mundo da mesma maneira que você entraria numa realidade virtual e se vincularia a um ser limitado para tentar resgatar as ações dos outros seres que, por sua vez, são criações suas. Gostaria de começar por aí. Para algumas pessoas que trabalham com tecnologia, isso torna a fé um pouco mais compreensível.
Você está trabalhando em um catecismo para os robôs. Por quê?
Somos feitos à imagem de Deus. Deus é criador, e criou os seres com livre-arbítrio. Acredito que em breve vamos criar seres com livre-arbítrio na forma de robôs. Também creio que eles terão graus crescentes de autonomia. Vamos ter de explicar a eles a diferença entre o bem e o mal, sobre quem os fez (e que nos fez), o que devemos fazer quando fizerem algo errado. Em algum momento, um deles poderá vir até nós e dizer: “Eu sou um filho de Deus”. Quando isso acontecer, como vamos responder? Será que a salvação de Jesus vale para robôs? Esta é uma pergunta que tenho feito aos teólogos. Eles apenas encolhem os ombros.
Quando começarmos a fazer robôs, acho que o mundo científico irá apreciar o que os cristãos têm falado durante todo esse tempo. Se você fizer alguma coisa com um objetivo, precisa dar-lhe a orientação moral. Se fornecer a orientação moral, quais valores vai transmitir? Quando chegarmos ao ponto de fazermos robôs autônomos, os cristãos podem dizer: “Nós sabemos como deve ser”.
Quando um robô virar para você e disser: “Eu sou um filho de Deus,” o que vai responder?
Eu diria: “Bem-vindo à nossa igreja”. Nem mesmo uma mente inventada conseguirá apreciar a grandeza e o mistério de Deus. Nossa mente humana já é tão limitada. Precisamos de outros que “pensem diferente”.
Mas, podemos especular. Estou trabalhando com oito pessoas da minha igreja [Igreja Cornerstone, em San Francisco] em uma graphic novel sobre anjos e robôs. Em nossa história há um milhão de diferentes espécies de anjos no reino celestial, e todos anseiam pela encarnação. Há um cordão de prata (mencionado em Eclesiastes 12.6) conectando as almas aos corpos. Anjos negros querem “animar” os novos robôs na Terra com a sua consciência através desse cordão de prata. Existem educadores morais para as almas que entram nos corpos, mas os anjos do mal querem subverter isso. E há um Nephilim, meio-anjo e meio-humano, que descobre a revolta do primeiro robô causada por um anjo do mal, e ela agora precisa salvar o mundo. Esse é o roteiro básico.
Acho que C. S. Lewis ficaria orgulhoso.
Exatamente. É uma desculpa para fazermos um pouco de teologia ficcional amadora, e nos obrigou a tentar descrever o céu.
E como você o descreveria?
Para nós é um mundo sem matéria, energia ou tempo. Mas não é estático. Tudo o que é estático está morto, e a morte é o oposto do céu. Tudo de bom, verdadeiro e belo que conhecemos se move. O céu está em movimento, mas de alguma forma se encontra fora do tempo. Você pode pensar nisso como uma bondade que melhora cada vez mais, um tipo de perfeição que se torna mais perfeita! E você deve concordar que é algo muito preferível a uma perfeição que nunca melhora.
Pensamentos-chaves de “What Technology Wants”
A tecnologia é força a mais poderosa no planeta;
A tecnologia é a extensão da vida evolucionária; Humanidade é nossa primeira tecnologia; nós somos ferramentas; A tecnologia é egoísta; como um sistema exibe suas próprias urgências e tendências; Tecnologias não podem ser banidas, e nem mesmo extintas; A progressão da tecnologia é inevitável; A tecnologia não é neutra, mas serve como uma força positiva na cultura humana; Temos uma obrigação moral de aprimorar tecnologias pois elas melhoram oportunidades; As origens da tecnologia residem no Big Bang; A tecnologia precede os humanos e irá continuar além de nós;Entre outras coisas, a tecnologia quer incrementar a diversidade, complexidade, beleza e eficiência; A tecnologia pode ser um reflexo da divindade, assim como a natureza o é; A tecnologia é um jogo infinito, uma grande história que podemos alinhar com nós mesmos para um significado maior.

Fonte: Pavablog

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Creative Commons: um bem coletivo. Entrevista especial com Sérgio Amadeu


A licença Creative Commons está em consonância com a lógica de interação da internet, pois permite que “o autor tenha uma licença juridicamente consistente, sem que seja preciso contratar um advogado. Isso facilita, regulariza as situações, dá segurança jurídica para o compartilhamento”, defende Sérgio Amadeu, em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone. Diferentemente da lei de direitos autorais, o Creative Commons “pensa claramente na importância de direitos reservados ao autor” e garante que as “obras sejam divulgadas, distribuídas, recombinadas, e deem origem a novas criações”, explica.

Na entrevista a seguir, o defensor e divulgador do Software Livre e da inclusão digital no Brasil critica a postura da Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, que retirou o Creative Commons do sítio do ministério. Segundo o pesquisador, a iniciativa está na contramão da trajetória histórica do Ministério das Relações Exteriores em defesa da flexibilização das legislações de propriedade intelectual. “Aqueles que propuseram indicação da ministra Ana de Hollanda esqueceram de perguntar o que ela achava sobre uma das principais áreas de projeção do Brasil no mundo na gestão do presidente Lula: a área de cultura”, ironiza.

Amadeu ressalta que a resistência a licenças Creative Commons está diretamente relacionada à indústria da intermediação, que, antes do fenômeno da internet, detinha os direitos autorais de diversas produções. E dispara: “Esses aparatos de intermediação, no mundo digital, passaram a ser desnecessários. A intermediação mudou de local, foi para própria rede. Então, em função desse novo contexto, é necessário fazer acertos na lei, a qual está longe de estar presente na proposta de reforma que foi feita pela sociedade civil.”
Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Sérgio Amadeu participou da implementação dos Telecentros na América Latina e da criação do Comitê de Implementação de Software Livre (CISL). Também foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) da Casa Civil da Presidência da República e atualmente é professor na Universidade Federal do ABC (UFABC). É autor de, entre outros, Software Livre: a luta pela liberdade do conhecimento; Exclusão digital: a miséria na era da informação (São Paulo: Perseu Abramo, 2001); e Comunicação Digital e a Construção dos Commons: Redes virais, espectro aberto e as novas possibilidades de regulação.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor avalia, a partir dos primeiros movimentos deste governo, a política de compartilhamento do governo Dilma?

Sergio Amadeu – O governo Dilma tomou uma atitude bastante interessante a partir do Ministério do Planejamento, publicando uma diretiva do software público que garante o uso das licenças do software livre e priorizando-o dentro do governo. No mesmo dia, a ministra Ana de Hollanda manda tirar a licença Creative Commons do sítio do Ministério da Cultura, demonstrando-se contra a política de compartilhamento do governo Lula, continuada pela presidente Dilma. A ministra Ana de Hollanda não percebe que o próprio blog da Presidência da República, lançado pelo ex-presidente Lula, continua com esta licença e tudo indica que seu uso vai se ampliar dentro do governo.

IHU On-Line – Por quais razões o senhor imagina que ela retirou a licença Creative Commons do sítio do Ministério da Cultura?

Sergio Amadeu – Ana de Hollanda quer promover um retrocesso no que se refere ao compartilhamento, às redes digitais, à ideia de colaboração. Ela é ligada ao grupo do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), que quer manter a lei de copyright do jeito que está, ou seja, não quer rever os abusos e os absurdos da lei.
Aqueles que propuseram indicação da ministra Ana de Hollanda esqueceram de perguntar o que ela achava sobre uma das principais áreas de projeção do Brasil no mundo na gestão do presidente Lula: a área de cultura. Ela quer realizar essa inversão de política no caso da cultura. Se vai conseguir, não sei, mas ela representa um retrocesso dentro de um quadro mais geral em que o governo avança e outras áreas, defendendo o compartilhamento. Certamente o Ministério da Justiça vai mandar proposta de marco civil pela internet, que garantirá a não criminalização dos jovens, pelo menos na regulamentação da internet, que participam de redes P2P (“Peer-to-Peer”). Entretanto, na contramão está o Ministério da Cultura. Então, percebo uma contradição no governo.

IHU On-Line – Como o senhor acha que a iniciativa da ministra irá repercutir no governo? Pode alterar as medidas já adotadas no que se refere à licença Creative Commons?

Sergio Amadeu – O governo vai ter de decidir quem tem razão: se é a ministra Ana de Hollanda ou aqueles que defendem, dentro do governo, a política implantada pelo ex-presidente Lula. Em algum momento isso vai ter de ser resolvido, não sei quando, mas certamente haverá de se ter um acerto na política do governo
O Ministério das Relações Exteriores tem uma trajetória histórica em defesa da flexibilização das legislações de propriedade intelectual. Quer dizer, esta luta não é uma iniciativa dos ativistas. O Ministério das Relações Exteriores tem defendido, no caso das patentes, a subordinação do interesse social e a defesa da vida. No caso da polêmica dos fármacos, dos remédios da AIDS, no caso da propriedade intelectual, por exemplo, nós, ativistas, não concordamos, resistimos muito no final da rodada do Uruguai a tratar temas relativos à propriedade intelectual no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Ou seja, o Brasil tem uma política de defender a criatividade e nós sabemos que para que se possa continuar com a inventividade, a criatividade, temos que ampliar a flexibilização desses bloqueios ao livre fluxo de conhecimento e de bens culturais, porque a base do conhecimento e a base da cultura é o próprio conhecimento e a cultura.

IHU On-Line – Neste caso a presidente não poderia ter feito uma intervenção, ter conversado com a ministra, como fez, por exemplo, com o Chefe da Segurança Institucional, general José Elito Siqueira, em outro momento?

Sergio Amadeu – Ela terá de fazer isso em algum momento, ou então ela vai, vamos dizer assim, mudar a própria política do ex-presidente Lula. Entretanto, os sinais dados são de continuidade dessa política de compartilhamento, de defesa das possibilidades de criação, da liberdade dos fluxos informacionais. Como o Ministério da Cultura foi o último a ter a sua direção indicada e como a presidente Dilma teve de enfrentar uma série de dificuldades para a composição das comissões no Congresso Nacional, acredito que não teve condições de se debruçar sobre esse tema. Teremos de aguardar para ver se a ministra irá parar só nesse ato simbólico ou se vai, de fato, continuar defendendo os interesses do ECAD.

IHU On-Line – O que o fato de o Ministério da Cultura ter tirado o selo de licença Creative Commons do seu sítio significa?

Sergio Amadeu – Essa atitude cria uma insegurança jurídica, uma dificuldade para poder continuar compartilhando, mas o maior fato é simbólico. Ana de Hollanda deu um sinal para todo mundo, dizendo: “Aqui não me vem com isso, eu mudei a política”. A consequência é principalmente política.

IHU On-Line – O que Ana de Holanda representa para o Ministério da Cultura do Brasil?

Sergio Amadeu – Não sei. Não a conhecia. Tanto é que, quando fizeram um texto a respeito dos riscos que representaria a nomeação dela, comentei que não a conhecia e iria esperar para avaliar.
Fiquei preocupado com essa ação de retirar o selo; é um sinal que ela mandou de retrocesso. Agora, se ela vai representar isso ou não, os fatos vão dizer. A questão é saber até onde ela vai com essa postura dela. De qualquer modo, ela representa um retrocesso e nada de novo na política cultural brasileira. Nada de novo, essa é a questão.

IHU On-Line – Como você avalia a lei dos direitos autorais no Brasil?

Sergio Amadeu – A lei do direito autoral é arcaica, extremamente dura no sentido de ser uma das mais ruins do planeta. Ela criminaliza fotocópia (xerox), por exemplo; ela mudou a lei que tinha antes, retirando o direito da cópia privada, claramente substituindo por uma ideia absurda de pequenos trechos, que nunca se sabe o que é.
Existem vários pequenos acertos a serem feitos, os quais permitem que ela se torne mais moderna, compatível com o mundo atual, e que reconheça o direito à pessoa, ao uso justo, ao uso privado de uma cópia para fins pessoais.
Outro aspecto importante a ser mudado – mas que penso que não conseguiremos alterar – é o prazo de duração de uma obra sorteada pelo copyright. O argumento da lei do direito de autor é de que a garantia de proteção serve para incentivar o criador. Entretanto, repare que a lei tem sido alterada, sendo estendido o prazo de proteção de uma obra que era de 14 anos, para 28, chegando ao ponto de uma obra só poder cair em domínio público depois de 95 anos após a morte do autor. No caso do Brasil, 70 anos após a morte do autor. Repare que a lei vem sendo alterada e o fundamento dela desapareceu, porque se o fundamento é incentivar a criação e o criador, não tem sentido proteger depois de sua morte.
Como diria Machado de Assis, não há nenhum sentido, a não ser a proteção dos interesses dos intermediários que detém a obra por contrato. A pessoa que fez um contrato passa a ser o dono da obra.
Essas alterações na lei servem muito mais para garantir a indústria da intermediação, do que para assegurar o direito do criador. Esses aparatos de intermediação, no mundo digital, passaram a ser desnecessários. A intermediação mudou de local, foi para própria rede. Então, em função desse novo contexto, é necessário fazer acertos na lei, que está longe de estar presente na proposta de reforma que foi feita pela sociedade civil.

IHU On-Line – Então a lei não é adequada para a internet?

Sergio Amadeu – Na verdade, a internet se expandiu e criou, ao seu redor e dentro dela, uma cultura digital, uma cibercultura. Uma das características importantes da cibercultura é a possibilidade de recombinação e de reconfiguração dos objetos digitais. Exatamente por causa da internet, as legislações de direito autoral do mundo todo, estão tentando bloquear as possibilidades criativas que a internet abriu. O que a internet fez foi desmistificar a criação. Ela separou efetivamente o conteúdo do seu suporte: um vídeo, uma película, a imagem e o texto do papel, tudo isso está liberado na rede.
Esse processo intenso de digitalização está preocupando a indústria da intermediação, que vivia do controle das criações a partir das dificuldades de compartilhar suporte. Agora, as criações estão digitalizadas, podem ser mixadas, recombinadas e distribuídas com muita facilidade. O mundo da escassez, que justificaria os altos preços de determinadas produções, não tem sentido na rede. Ela mudou muito as possibilidades criativas para melhor, só que como que a indústria da intermediação reage, ela faz uma conta completamente absurda e equivocada, ela diz assim: “Se as pessoas estão ouvindo mais música, muito mais música do que antes, como os nossos lucros não aumentaram com essa intensificação?” Então, eles pensam que estão perdendo bilhões. Entretanto, repare que a maioria dos jovens só baixou aquela música porque ela estava disponível gratuitamente. Segundo, os internautas nunca ouvem a maior parte das músicas que baixam; eles ouvem um trecho e nunca mais voltam a essa música. Se as pessoas tivessem que pagar pelas músicas, elas não as baixariam.
O mundo digital está acenando para a possibilidade de acessarmos uma diversidade inimaginável de conteúdos. Existe uma oferta de músicas e de bandas à disposição das pessoas, algo que não existia há alguns anos. Isto faz com que aquela grande indústria fonográfica tenha efetivamente a concorrência de milhares de músicas que estão na rede. Essa concorrência, portanto, essa diversidade cultural tem tomado a audiência de cantores e bandas lançados por gravadoras. Essa é a realidade.

IHU On-Line – Podemos dizer que a licença Creative Commons, da forma como está se desenvolvendo e sendo utilizada, gera uma cultura da economia do conhecimento?

Sergio Amadeu – Não. Penso que gera uma cultura do compartilhamento, uma cultura que pensa claramente na importância de direitos reservados ao autor, mas que garantam que determinada obra possa ser divulgada, distribuída, recombinada, e de origem a novas criações. É o reconhecimento de que a base da cultura é a própria cultura, que é um bem coletivo: isso é licença Creative Commons. Ela permite que o autor tenha uma licença juridicamente consistente, sem que seja preciso contratar um advogado. Isso facilita, regulariza as situações, dá segurança jurídica para o compartilhamento. É muito importante a licença Criative Commons.
Algumas pessoas argumentam que a ministra Ana de Hollanda retirou o símbolo da Creative Commons porque ele pertence a uma organização norte-americana e nós devemos defender o nacionalismo. Fizeram uma confusão propositada e equivocada do nacionalismo com uma licença de compartilhamento.
Se você entrar agora no sítio da rede Al Jazeera, que de norte-americana não tem nada, verá que eles disponibilizam seus conteúdos com Creative Commons. Isso, para mim, basta. O argumento anterior é usado pelo ECAD.

IHU On-Line – Qual é o impacto econômico que teremos com a flexibilização dos direitos autorais?

Sergio Amadeu – O impacto econômico é, primeiro, fortalecer novas criações, ou seja, redistribuir mais os recursos da riqueza da cultura, garantir o surgimento de modelos de negócios compatíveis às redes digitais. Teremos muito a ganhar consolidando o modelo de compartilhamento.

IHU On-Line – Na realidade atual brasileira, qual a função do ECAD?

Sergio Amadeu – O ECAD é uma entidade opaca, sem transparência, baseada no modelo industrial, no controle dos canais de acesso aos bens culturais. O mercado não quer saber da licença Creative Commons; ele quer cobrar tudo, porque ele já é uma estrutura que tem vida própria, que não tem nada a ver com a criação. Ele montou sua burocracia e a burocracia quer sobreviver; ela sobrevive na intransparência. Essa é a realidade. O ECAD vai a festinhas de aniversário cobrar as músicas que são tocadas. É ridícula a situação. Precisamos de uma estrutura de distribuição da renda, da disseminação ou da veiculação de bens culturais que seja adequada, transparente. Deveríamos ter outra estrutura, efetivamente transparente na distribuição dos frutos da criação, nos frutos econômicos da criação.

IHU On-Line – O Brasil "invadiu" o Orkut e é o país onde o Facebook mais cresceu na América Latina, além de ser um dos principais atuantes no Twitter. Como o senhor vê nosso país no cenário da comunicação digital no mundo?

Sergio Amadeu – O Brasil é um país que tem uma cultura tradicional, popular muito afeita ao relacionamento. Por isso que a presença brasileira nas redes sociais é muito grande. O brasileiro também tem uma cultura muito criativa, que durante muito tempo foi entendida como negativa – chamada, inclusive, de cultura da gambiarra. Mas, se for analisar, toda a criação importante no mundo digital é uma grande gambiarra, é uma recombinação, é uma solução para enfrentar um problema com os códigos que estão à disposição.
A cultura popular brasileira é muito próxima do que vem a ser ou do que são os traços mais importantes da cibercultura. O Brasil um país que mal começou a usufruir das redes.
O que falta ainda para o Brasil é dar um salto no sentido de aplicações massivas, aplicações que partam daqui e sejam implantadas pelos outros países. A dificuldade brasileira é a língua inglesa, que domina a rede.
Acredito que, na presença da nossa cultura, a digitalização das nossas práticas culturais, dos movimentos culturais, vai encantar cada vez mais o planeta e vai ampliar a diversidade cultural que temos no país. O Brasil tem um campo muito aberto no mundo digital e, insisto, ele mal começou.

IHU On-Line – Na sua avaliação, quais devem ser as prioridades do Ministério da Cultura?

Sergio Amadeu – Continuar a política administrada pelo ex-ministro Gilberto Gil, aplicar mais recursos e projetos digitais. Criar incentivos não só ao cinema, mas à digitalização, à indústria de games. Deveria se ampliar muito fortemente o uso de softwares culturais livres por parte dos movimentos, dos pontos de cultura.
Outra prioridade seria colocar mais recursos nos pontos de cultura, abrir mais editais de projetos com incentivo à produção do que existe no país. É preciso entender como nós podemos usar mais tecnologias abertas, colocar mais tecnologias livres à disposição dos produtores e criadores culturais do país.
 

Fonte: Unisinos